Com o dólar fechando em R$ 5,23 na última semana, o câmbio voltou ao centro do debate econômico. Desde o início do ano, a moeda americana acumula queda de quase 6% — abriu 2026 em R$ 5,51 — movimento que sugere uma janela de otimismo para o Brasil em meio a um ambiente externo mais favorável.
Mas, afinal, o que o governo deve fazer para que a moeda americana continue em queda? Economistas ouvidos pelo R7 analisam que o rumo estrutural do dólar depende menos de declarações e mais da consistência das políticas internas.
Na semana passada, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) afirmou que a moeda oscila mais pelo “humor de Donald Trump” do que pela seriedade da economia brasileira.
“O dólar fica oscilando porque depende do humor do Trump, não depende de nós. Não depende da seriedade da nossa economia”, discursou o petista.
Para o economista Renan Silva, professor do Ibmec Brasília, o atual cenário político americano de fato interfere no câmbio.
“Declarações presidenciais e decisões de política externa e medidas econômicas adotadas pelo governo americano são capazes de alterar a percepção de risco dos investidores, impactando o câmbio. É certo que a cada declaração os agentes econômicos reprecificam imediatamente seus possíveis impactos”, afirma.
Contudo, para Melquezedech Moura, especialista em finanças do Ibmec Brasília, três elementos internos são determinantes para o comportamento do dólar: as contas do governo, o tamanho da dívida pública e o nível da taxa de juros.
“O preço do dólar é como o preço de um produto qualquer: ele muda dependendo da oferta e da procura. Se tem muito dólar entrando no Brasil, o preço dele cai. Se tem muito dólar saindo, o preço sobe”, explica.
Para ele, a recente queda do dólar ainda não pode ser interpretada como sinal definitivo de confiança estrutural no Brasil. “A recente queda do dólar é uma boa notícia, mas não podemos comemorar como se fosse um sinal definitivo de confiança.”
Nesse ponto, Renan reforça a importância da disciplina fiscal. “Caso o governo sinalize para uma maior disciplina fiscal, isso pode resultar em maior entrada de capital no país e, consequentemente, na valorização do real.”
Atratividade de investimentos em dólar
A recente desvalorização do dólar frente ao real ocorre em um contexto de expectativa de cortes de juros nos Estados Unidos, o que reduz a atratividade de investimentos em dólar.
“A desvalorização do dólar frente ao real é um resultado da confluência de fatores externos e internos. Um cenário de juros mais baixos nos EUA tende a diminuir a atratividade dos investimentos denominados em dólar, o que pode incentivar o fluxo de capital para mercados emergentes”, analisa Silva.
Parte do movimento recente também está ligado ao próprio enfraquecimento global da moeda americana e ao diferencial de juros brasileiro.
Com a Selic em patamar elevado — 15% ao ano —, o Brasil se torna destino de estratégias conhecidas como carry trade, em que investidores captam recursos em países de juros baixos e aplicam onde o retorno é maior.
Moura faz um alerta sobre a estratégia: “Se a confiança no país diminuir, esse ganho desaparece e os investidores retiram seu dinheiro rapidamente.”
Reservas cambiais
Com reservas cambiais na casa de US$ 350 bilhões, o Brasil possui instrumentos para enfrentar futuros momentos de estresse externo, principalmente em 2026, ano eleitoral no país.
“A capacidade do Brasil de absorver impactos de turbulências internacionais sem uma disparada cambial é multifacetada”, explica Silva.
Ele lembra que, embora o país tenha enfrentado crises significativas no passado, o atual volume de reservas oferece um colchão importante contra saídas abruptas de capital.
Ainda assim, ele alerta: “Para que o Brasil esteja blindado para absorver turbulências sem uma desvalorização acentuada da moeda, é fundamental a manutenção de políticas fiscais responsáveis, um controle rigoroso da inflação e a garantia de um ambiente político estável”, finaliza.




