“Pois Eu vos digo que, se a vossa justiça não superar a dos escribas e fariseus, de modo nenhum entrareis no Reino de Deus.”
Mateus 5.20
Então, Enzo se colocou elegantemente na frente de Laura. Ela sorriu. Ele afirmou:
— Hoje você tá muito bonita!
— Eu sei — comentou Laura com segurança no falar e no olhar. — Mas não pense que eu vou cair nesse seu papinho de sedutor barato. Entendeu? Eu sei como você age. Como seleciona as suas vítimas. Não deveria ser desse jeito. Mas é. E eu não sou cega.
— Mas… eu vou à Igreja também — argumentou Enzo fazendo uma cara de coitado. Os belíssimos olhos azuis refletiam uma pessoa legal, transparente, no entanto, ele estava muito imerso nos prazeres mundanos. — Não me julgue tanto assim. Eu te peço. Misericórdia!
Laura não aguentou a entonação dramática que ele fez ao pronunciar a seguinte palavra: misericórdia. Riu.
— Você é tão incongruente! Que loucura!
— Não é loucura não — disse Enzo com ênfase. Sorriu. — É amor!
Então, Laura se colocou séria. Perguntou:
— Tem certeza?
— Claro — respondeu Enzo com satisfação no olhar. — Ódio não pode ser.
E mexeu nos belos cabelos lisos, loiros. Continuou:
— Mas, Laura, eu não sou perfeito. É bom você lembrar disso.
— O pretexto pra você errar e errar e depois vir me implorando mais um voto de confiança — disse ela já se estafando do jeito dele. Era perceptível a irresponsabilidade de Enzo em falas e atitudes. — Pra você é vantajoso. Até demais! O cara que pega várias mulheres e se faz de santinho. Por favor! Consciência, Enzo!
Ele não gostou do puxão de orelhas e irritado comentou:
— A gente nem combina tanto assim. Talvez… seja uma vaidade da minha parte querer ficar insistindo num lance que tem tudo pra dar errado. É. O problema realmente sou eu. É. Eu confesso. Esse papo de ser religioso e tal não é o que eu curto. Entendeu? Eu acredito em Deus! Amém! Com certeza! Mas não tô a fim de ficar numa Igreja cumprindo um monte de regras. É chato demais! Tô mandando a real mesmo!
— E olha que você foi criado na Igreja — argumentou Laura. — Eu não tô diante de um homem que pouco escutou A Palavra de Deus. Você já sabe qual é o caminho!
Sensualmente, Tânia se aproximou dos dois mastigando um chiclete. O decote dela realmente era para causar escândalo na sociedade. Gostava demais de andar com chamativos saltos altos da cor vermelha. “É a cor da sedução! A cor da provocação! A cor da paixão!”, dizia às amigas que ganhavam muito dinheiro com a prostituição (os clientes eram homens ricos, milionários, estrangeiros que vinham fazer negócios rentáveis no Brasil). “Mas o meu grande problema é que eu sou muito levada pelas emoções. Só consigo ser amante. Porque eu me apego ao macho! Me apegooooooo demais, gatas! É um defeito da gostosona aqui!”
Tânia olhou para Enzo e Laura com deboche. Perguntou:
— Quando sai o casamento, queridos?
Enzo respondeu:
— Não haverá casamento.
— Concordo com o Enzo — disse Laura com tranquilidade. — Nós somos muito diferentes.
Tânia riu. Comentou:
— E depois a louca sou eu. Tá. Tá. Vão continuar se enganando e o tempo vai passando. O Enzo não querendo deixar de ser o garanhão mesmo estando com trinta e oito anos…
— Trinta e oito já? — perguntou Laura espantada com a idade de Enzo.
— É. Trinta e oito anos. Tô velho?
— Não — respondeu Tânia. — Mas tem que se decidir. Você quer o amor ou ser o cara das noitadas?
“Quando viu as multidões, Jesus subiu ao monte; havendo se sentado, seus discípulos se aproximaram, e Ele começou a ensinar-lhes, dizendo: Bem-aventurados os pobres em espírito, pois deles é o Reino do Céu. Bem-aventurados os que choram, pois serão consolados. Bem-aventurados os humildes, pois herdarão a Terra. Bem-aventurados os que têm fome e sede de justiça, pois serão saciados. Bem-aventurados os misericordiosos, pois alcançarão misericórdia. Bem-aventurados os limpos de coração, pois verão a Deus. Bem-aventurados os pacificadores, pois serão chamados filhos de Deus. Bem-aventurados os perseguidos por causa da justiça, pois deles é o Reino do Céu. Bem-aventurados sois, quando vos insultarem, perseguirem e, mentindo, disserem todo mal contra vós por Minha causa. Alegrai-vos e exultai, pois a vossa recompensa no Céu é grande; porque assim perseguiram os profetas que viveram antes de vós.”
Mateus 5.1.12
Com a Bíblia ainda aberta, Dom olhou para Enzo com ternura. Disse:
— As belíssimas palavras de Jesus, realmente, são valiosas. Aplicáveis aos dias atuais. Inspiradoras. Amém! Mas… eu não quero obrigar você a ser um cristão. Não é pela força dos meus braços. É o Espírito Santo que vai te tocar.
— Eu sei.
Enzo respirou fundo. Desabafou:
— São tantas as distrações. Tantas as tentações. Fica muito difícil para um homem como eu servir a Deus 100%. Entende? Tipo… é uma renúncia imensa. Quase que… quase que impossível.
— Mas não é impossível! — afirmou Dom com fé. — Deus te ama!
— Eu tô confuso, Dom!
— Confuso como?
— Eu quero ser um homem honrado. Sabe? De família. Ser pai. Ter filhos.
— Sim, sim.
— Mas…
— Mas…?
— É difícil explicar quem eu sou.
— O que você é já tá explícito, Enzo! Não é um mistério.
— Mesmo?
— Sim.
— Meu Deus!
— Acalme-se, Enzo! Como eu te disse: Deus te ama!
— É difícil, Dom! Muito, muito difícil.
— O homem é repleto de incongruências, Enzo! Lembre-se disso! Eu sei que não adianta só eu falar: faz isso, faz aquilo. Mas… A Palavra de Deus é a bússola dos que creem no Seu Supremo Amor.
— Eu tô muito carnal nestes dias. Demais! Às vezes eu me pego chorando. Melancólico. É. Eu confesso. É triste! Aí eu lembro de quando eu ia à igreja com fé. Muita fé mesmo. De quando eu ia à igreja com satisfação. Não apenas aos domingos. Praticamente todos os dias eu sentia um enorme júbilo em me dirigir a Casa do Senhor com a Bíblia em mãos. O meu sorriso era diferente. O meu semblante resplandecia. As minhas palavras evangelizavam. Mas… eu olhei pro homem. É. Infelizmente, eu olhei pro homem e fiquei perplexo com a tamanha falsidade de muitos que se dizem cristãos sinceros e se comportam como ateus. Infelizmente, Dom, eu me vi diante de uma realidade até então desconhecida por mim. Eu fumo, bebo e… de vez em quando…
Hesitou um pouco em confessar, mas sentindo-se muito confortável com a presença eclesiástica de Dom, continuou com o olhar amargurado:
— Eu curto um baseado de vez em quando. De vez em quando. Mas já tô parando. Acontece mais quando eu vou pra festa e tal. Aí os caras já chegam na maior brisa e pá. É tipo… que uma obrigação fumar um baseado com os manos. Entende? É tipo… um apoio pros caras. Pra evitar treta. Sabe? É melhor curtir a festa na tranquilidade. É só não se viciar. Aí fica no jeito. Entende? Desculpa! Você não entende o que tô te dizendo. Nunca fumou um baseado, né?!
Dom, com uma paciência admirável, pousou a mão no ombro de Enzo. Respondeu com mansidão:
— Não. Mas isso não me faz nem melhor, nem pior que você.
Enzo sorriu. Afirmou:
— Você é muito humilde, Dom! Muito humilde mesmo, cara. Desculpa! Desculpa por te perturbar!
— Você não perturba.
— Perturbo. Perturbo demais.
— Não, Enzo. Relaxa! Logo logo você vai estar novamente na Casa de Deus, louvando-O com fé. Com fervor. Amém! Eu creio nisso!
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