Cacoal voltou a ocupar espaço de destaque no cenário nacional
da cafeicultura. Em reportagem exibida pelo Globo Rural,
da TV Globo, no domingo, 30 de agosto, o município apareceu como
uma das referências da transformação que mudou o perfil do café
produzido em Rondônia.
O programa mostrou uma cadeia produtiva que deixou de ser associada
apenas à produção em grande escala e passou a incorporar conceitos
como seleção genética, colheita controlada, fermentação, secagem,
análise sensorial, cafés especiais e valorização da origem.
Em Cacoal, essa transformação pode ser medida tanto pelos resultados
obtidos em concursos nacionais quanto pelas propriedades que se
tornaram referência para produtores, técnicos, pesquisadores e
compradores de outras regiões do país.
A mudança não ocorreu de uma safra para outra. Ela foi construída
por famílias que permaneceram no campo, produtores que selecionaram
plantas, técnicos, pesquisadores e uma geração que passou a tratar
o robusta como um café de qualidade.
A família Bento e a transformação de uma propriedade rural
Um dos exemplos apresentados nessa trajetória é o da família Bento,
em Cacoal. No Sítio Rio Limão, Ronaldo da Silva Bento, Deigson Mendes
Bento, Dione Mendes Bento e seus familiares transformaram a produção
de café em uma atividade que reúne agricultura familiar, tecnologia,
cafés especiais e turismo rural.
A propriedade tem aproximadamente 12 hectares e sustenta cinco
famílias. O trabalho de seleção de plantas, manejo, colheita,
fermentação, secagem e armazenamento permitiu elevar a produtividade
e melhorar a qualidade do produto.
O reconhecimento ultrapassou os limites do setor produtivo. O sítio
passou a receber visitantes interessados em conhecer todas as etapas,
da lavoura à xícara, e entrou no circuito de turismo rural ligado ao
café.
A experiência da família demonstra uma das mudanças mais importantes
ocorridas na cafeicultura local: em vez de comercializar apenas o
grão, parte dos produtores passou a agregar valor por meio da marca,
da qualidade, do processamento e da própria história da propriedade.
Pioneiros ajudaram a mudar a lavoura
A modernização do café de Cacoal começou antes de os robustas
amazônicos alcançarem projeção nacional. Entre os nomes associados
a esse processo está o produtor e viveirista Anerlei Sérgio
Kalk.
Kalk venceu, em 2016, o primeiro Concurso de Qualidade de Café
Canéfora de Rondônia. O trabalho de seleção de plantas com melhor
desempenho e qualidade de bebida ajudou a disseminar materiais
clonais que posteriormente seriam utilizados por outros produtores.
Outro nome ligado a essa fase é Nivaldo Ferreira Laethe,
reconhecido entre os produtores e viveiristas que trabalharam com a
seleção e multiplicação de mudas clonais.
Esse trabalho realizado dentro das propriedades, aliado à pesquisa
e à assistência técnica, contribuiu para substituir lavouras menos
produtivas e melhorar o padrão do café produzido na região.
Cafés de Cacoal chegaram ao pódio nacional
Os resultados de produtores do município em concursos passaram a
confirmar que a transformação não estava restrita à produtividade.
O café produzido em Cacoal também começou a conquistar espaço pela
qualidade da bebida.
João Alves da Luz, do Café da Luz, conquistou em
2022 o segundo lugar entre os cafés canéforas no Coffee of the Year,
uma das principais competições realizadas durante a Semana
Internacional do Café.
Em 2024, o produtor voltou a ganhar destaque ao vencer o Prêmio CNA
Brasil Artesanal com um café fermentado produzido em sua propriedade.
A família também avançou no beneficiamento e na comercialização
direta do produto.
Outra produtora de Cacoal, Lucilene de Jesus Maia
Santos, conquistou o segundo lugar no Coffee of the Year de
2023, novamente colocando o município entre os principais produtores
de cafés canéforas do Brasil.
Ao longo dos últimos anos, nomes como Tiago Novaes Duarte,
André Kalk, Edorli Knaak, Aldair Zimmermann Schmidt, Antônio Alves
Dias e Pedro Fernando Urbano também passaram a integrar o grupo de
produtores reconhecidos por resultados obtidos na cafeicultura local.
O café robusta deixou de ser avaliado apenas pela quantidade.
O produtor passou a acompanhar ponto de maturação, genética,
fermentação, secagem e perfil sensorial. O resultado foi a
valorização de lotes especiais e o surgimento de marcas próprias.
Produção indígena amplia a identidade do Robusta Amazônico
A reportagem do Globo Rural também mostrou outro segmento
que se tornou parte da nova identidade do café de Rondônia: a produção
realizada por indígenas.
Nas terras do povo Paiter Suruí, a cultura passou a combinar geração
de renda, permanência no território, fortalecimento comunitário e
produção de cafés de alta qualidade.
Entre os produtores está o cacique Rafael Mopimop
Suruí, cujo café já obteve pontuações expressivas em
concursos voltados à produção indígena.
Outro nome ligado a Cacoal, Luan Mopib Gorten Suruí,
também figurou entre os melhores colocados em competições estaduais,
reforçando a presença indígena na cadeia dos cafés especiais.
Cacoal tornou-se ponto de encontro da cafeicultura
O protagonismo de Cacoal não depende apenas da quantidade produzida
dentro de seus limites territoriais. A cidade consolidou-se também
como centro de negócios, capacitação, pesquisa, comercialização e
divulgação do café de Rondônia.
O município já recebeu encontros nacionais de degustadores,
pesquisadores, produtores e compradores e sedia eventos voltados
especificamente aos robustas amazônicos.
Essa estrutura criou uma relação direta entre Cacoal e a imagem do
café produzido em Rondônia. Mesmo quando os grãos são cultivados em
municípios vizinhos, é comum que a cidade funcione como ponto de
referência para tecnologia, eventos, comercialização e formação
técnica.
Matas de Rondônia deu identidade ao produto
A transformação ganhou também uma identificação territorial.
Cacoal integra a região conhecida como Matas de
Rondônia, formada por municípios produtores e áreas
indígenas que compartilham características ambientais e produtivas.
A região conquistou Denominação de Origem para seus cafés canéforas,
reconhecimento que estabelece relação entre as características do
produto e o território onde ele é produzido.
Com isso, o café que durante décadas era comercializado simplesmente
como robusta passou a chegar ao mercado identificado como
Robusta Amazônico das Matas de Rondônia.
O antigo café vendido como matéria-prima passou a carregar
origem, produtor, propriedade, pontuação, método de processamento
e história.
A produtividade cresceu, mas a qualidade mudou o mercado
Rondônia também avançou de maneira expressiva em produtividade.
A substituição de lavouras antigas por materiais clonais, a irrigação,
o manejo nutricional e técnicas mais precisas elevaram o rendimento
por hectare.
A principal mudança, porém, ocorreu na relação do produtor com aquilo
que colocava no mercado. O café passou a ser colhido e processado de
maneira diferente conforme o objetivo de cada lote.
O produtor passou a separar frutos maduros, controlar a secagem,
testar fermentações, identificar materiais genéticos, armazenar os
lotes com maior cuidado e conhecer o resultado do próprio café na
xícara.
Essa mudança permitiu que parte da produção deixasse o mercado de
café comum e ingressasse no segmento de cafés especiais, em que
características sensoriais e origem agregam valor ao produto.
Presença no Globo Rural consolida uma trajetória
A presença de Cacoal na reportagem nacional não representa um fato
isolado. Ela sintetiza uma mudança construída ao longo de anos por
produtores, famílias, viveiristas, técnicos, pesquisadores,
instituições públicas e comunidades indígenas.
Anerlei Kalk e outros pioneiros participaram do início da seleção
das plantas. Famílias como a dos Bento mostraram que uma propriedade
pode combinar produção e turismo. João da Luz, Lucilene de Jesus
Maia Santos e outros produtores levaram o nome do município às
principais competições do setor.
Ao mesmo tempo, produtores Paiter Suruí ampliaram o significado do
Robusta Amazônico, associando a produção de qualidade ao território
indígena e à floresta.
São experiências diferentes que convergem para o mesmo resultado:
Cacoal passou a ocupar posição central na divulgação, na evolução
técnica e na construção da identidade do café produzido em Rondônia.





