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O JEITO AUTISTA DE TORCER NA COPA DO MUNDO

Entre emoções, barulhos e encontros sociais, adultos autistas podem encontrar formas próprias de viver a paixão pelo futebol sem abrir mão do conforto e do bem-estar.

A Copa do Mundo transforma a rotina das pessoas. A casa muda de clima, as conversas giram em torno dos jogos, as ruas ficam mais movimentadas e a emoção toma conta dos encontros familiares e sociais. Mas existe uma pergunta importante: será que todo mundo sente essa experiência da mesma forma?

Para adultos autistas, acompanhar a Copa envolve aspectos que vão além do jogo. Sons intensos, multidões, mudanças na rotina e excesso de estímulos podem transformar uma celebração em um momento de desgaste. Cerca de 1% da população é autista, e durante eventos de grande magnitude como a Copa, muitos enfrentam barreiras invisíveis que impedem a participação plena.

Segundo Dr. Matheus Trilico, neurologista referência em TEA e TDAH adulto, compreender essas diferenças é fundamental. “Não existe uma única maneira correta de torcer. Algumas pessoas autistas acompanham todos os jogos, analisam estatísticas, conhecem detalhes das seleções e vivem intensamente esse momento. Outras preferem assistir em ambientes mais tranquilos ou participar de forma diferente. O importante é respeitar o próprio funcionamento”, explica.

Quando a emoção vem acompanhada de muitos estímulos

Durante a Copa, elementos que fazem parte da festa podem ser desafiadores para adultos autistas: fogos de artifício, buzinas, gritos, músicas altas, lugares cheios e mudanças inesperadas nos horários. O que representa apenas animação para alguns pode significar uma quantidade muito grande de informações para processar.

Sons acima de 85 decibéis em estádios e bares causam desconforto físico real. O silêncio de um pênalti seguido pelo grito explosivo de um gol gera um choque no sistema nervoso. Luzes piscantes, mudanças abruptas de volume e multidões densas elevam os níveis de cortisol e ansiedade, resultando em prejuízo funcional imediato.

“O cérebro autista percebe estímulos sensoriais de uma maneira diferente. Um ambiente muito intenso pode gerar cansaço, irritação ou necessidade de se afastar para recuperar o equilíbrio”, afirma o especialista.

A Coexistência de TEA e TDAH: O Conceito de AuTDAH

A medicina reconhece que a coexistência entre o Transtorno do Espectro Autista (TEA) e o Transtorno do Déficit de Atenção com Hiperatividade (TDAH) é uma realidade frequente e cientificamente validada. Estudos indicam que até 70% das pessoas autistas apresentam sintomas clinicamente significativos de TDAH. Essa sobreposição não é meramente uma soma de diagnósticos isolados, mas uma configuração neurológica única que cria demandas contraditórias no processamento de informações e na regulação emocional.

Embora não figurem como nomenclatura diagnóstica oficial nos manuais técnicos, os termos AuDHD (do inglês Autism + ADHD) ou AuTDAH, em português, foram cunhados pela própria comunidade neurodivergente. Essa terminologia surgiu porque a classificação clínica isolada frequentemente não captura a experiência vivida de quem navega simultaneamente pelas características de ambos os transtornos. O uso desses termos reflete a busca por identidade e compreensão de uma realidade neurobiológica que a medicina ainda está aprendendo a nomear adequadamente.

Segundo Dr. Trilico, essa combinação gera conflitos internos severos, especialmente em ambientes de alta estimulação. O traço autista busca rotina, previsibilidade e controle sensorial, enquanto o TDAH demanda novidade, movimento e estimulação constante. Esses dois sistemas neurológicos funcionam em direções opostas. Durante a Copa do Mundo, o torcedor que vivencia o AuTDAH enfrenta um dilema neurobiológico: a necessidade de foco na partida colide frontalmente com alterações sensoriais bruscas — o estouro de fogos, gritos súbitos da torcida, mudanças abruptas de iluminação. O resultado é uma desregulação severa que pode invalidar completamente a experiência do evento.

Torcer também pode ser do seu jeito

Existe uma expectativa social de que todo mundo esteja envolvido com a Copa: vestir a camisa da seleção, reunir amigos, assistir aos jogos em grupo e participar das comemorações. Porém, para muitos adultos autistas, respeitar os próprios limites permite aproveitar melhor a experiência.

Algumas estratégias funcionam bem: assistir aos jogos em um ambiente confortável; planejar encontros e evitar situações inesperadas quando possível; fazer pausas durante eventos mais longos; ter um espaço tranquilo para descansar; usar recursos que ajudem no conforto sensorial, como fones de redução de ruído.

“Participar não significa precisar suportar tudo. A pessoa pode criar uma forma própria de viver aquele momento, sem transformar diversão em obrigação”, destaca o neurologista.

O desafio de parecer animado o tempo todo

Outro ponto que merece atenção é o chamado masking, ou camuflagem social. Alguns adultos autistas tentam esconder desconfortos ou agir de uma maneira esperada socialmente para se encaixar. Durante eventos coletivos, essa pressão aumenta.

Pesquisas publicadas na Frontiers in Psychiatry (2026) mostram uma correlação direta entre o masking persistente e o esgotamento autista (burnout), depressão e ansiedade crônica. “Às vezes, a pessoa está cansada, desconfortável ou sobrecarregada, mas continua tentando demonstrar que está tudo bem. Esse esforço constante gera exaustão emocional que dura dias após o evento”, explica o especialista.

Uma Copa mais inclusiva começa pelo respeito

O jeito autista de torcer pode ser mais silencioso, mais analítico, mais reservado ou até muito intenso. Não existe uma forma única de viver a paixão pelo futebol. Para alguns, a Copa será um momento de reunir pessoas queridas. Para outros, será acompanhar cada detalhe dos jogos no próprio ritmo. E para alguns, simplesmente não será um evento de interesse.

“O mais importante é que cada pessoa tenha liberdade para viver essa experiência de uma maneira que faça sentido para ela. Inclusão também é entender que diferentes formas de participar são igualmente válidas”, conclui o neurologista.

Respeite o fone de ouvido do colega ao lado. Respeite quem prefere assistir em casa. Respeite diferentes formas de torcer. As peças se encaixam quando você entende como seu cérebro funciona.


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