Nesta terça-feira (24), a Polícia Civil de São Paulo resgatou 141 animais (entre eles 136 gatos e 5 cães ) durante uma operação em um gatil clandestino na zona leste da capital. Segundo a investigação, os animais viviam em condições de maus-tratos e superlotação. Uma mulher foi presa em flagrante.
No local, também foram encontrados medicamentos veterinários e um centro cirúrgico que funcionava sem autorização, além de indícios de reprodução e comercialização irregular dos animais.
O caso reacende o debate sobre criadouros clandestinos e os riscos envolvidos na compra de animais sem origem comprovada, especialmente em situações em que o apelo por “animais de raça” pode mascarar práticas de exploração e negligência.
Para comentar o assunto, minha sugestão é o médico veterinário Victor Soares, pós-graduado em Oncologia de Cães e Gatos e autor do livro “Não era passeio, era consulta”. Com mais de 10 anos de atuação clínica, o especialista pode explicar os impactos da criação inadequada na saúde física e comportamental dos animais, além de abordar a importância de conhecer a procedência dos animais antes da adoção ou compra. Além de como decisões de consumo influenciam diretamente o combate ao comércio clandestino e o bem-estar animal.
No fim de um plantão exaustivo, uma husky siberiano de nove meses chega ao hospital veterinário em estado crítico após uma sequência de convulsões. A canina, chamada Loba, mal conseguia reagir aos procedimentos, enquanto o tutor demonstrava pressa para encerrar o caso. É a partir dessa cena de que o médico veterinário Victor Soares inicia a narrativa de Não era passeio, era consulta, livro publicado pela Editora Rua do Sabão, que transforma experiências reais da profissão em reflexões sobre vínculo, negligência e responsabilidade afetiva com os animais.
Ao unir memória autobiográfica, bastidores hospitalares e análise social, o autor apresenta a relação entre humanos e animais sob o ponto de vista de quem convive diariamente com emergências, eutanásias e decisões difíceis.
Enquanto o narrador enfrenta o esgotamento emocional causado pela profissão, a protagonista de quatro patas reage aos traumas acumulados por uma criação negligente. Por meio de tropes literárias como found family, segunda chance e conexão entre humano e animal nos tempos atuais, Victor Soares descreve a recuperação de Loba após sua família desistir dela, entrelaçando à narrativa ensaios, relatos e histórias de outros pacientes que foram marcantes na sua carreira.

Situações comuns na rotina veterinária, que raramente aparecem fora do consultório, também são discutidas na obra, entre elas o peso das decisões clínicas, a pressão emocional sobre os profissionais e a chamada “fadiga por compaixão”, condição causada pelo contato constante com sofrimento e perdas. O escritor ainda traz para o debate assuntos muito importantes para a criação de cães e gatos, como obesidade animal, luto, compreensão da natureza animal e evidencia a importância do cuidado e do amor aos bichos de estimação.
Esta obra inaugura um novo olhar sobre a literatura veterinária no Brasil […] o autor nos conduz pelos meandros da medicina veterinária moderna, explorando temas cruciais como a crescente humanização dos pets, os dilemas éticos da profissão e as profundas transformações na relação entre tutores e animais no período pós-pandemia. Cada capítulo equilibra com maestria o drama real dos casos clínicos com reflexões perspicazes sobre comportamento animal, antropomorfização e os desafios contemporâneos do cuidado com nossos companheiros de quatro patas, descreve Juliana Cunha, crítica literária que assina a orelha da obra.
Em Não era passeio, era consulta, o autor mostra como o cuidado com os animais vai muito além do afeto: exige responsabilidade emocional, limites e empatia. Ao acompanhar a trajetória de Loba, o leitor é convidado a refletir sobre temas fundamentais para a criação de cachorros e gatos, como: adoção responsável, finitude, respeito e compreensão da natureza dos bichos, além dos riscos de transformá-los em projeções humanas. Com casos tão impactantes quanto reais, este livro amplia o debate sobre a criação dos companheiros de quatro patas de forma inédita, e reforça como vínculos podem transformar não apenas a vida dos pets, mas também das pessoas ao redor deles.



