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O dia em que André Mendonça tirou o pano da mesa

● Papudiskina também tem sua edição extraordinária, pois o momento a justifica
PAPUDISKINA

O dia em que André Mendonça tirou o pano da mesa

Daniel Oliveira da Paixão

Tem dia em que Brasília ferve.

E tem dia em que alguém simplesmente levanta a tampa da panela.

Nesta terça-feira, 1º de setembro, o ministro André Mendonça fez a segunda coisa.

Ao retirar o sigilo de parte do inquérito do Banco Master, o “terrivelmente evangélico” indicado por Jair Bolsonaro colocou diante do país um conjunto de mensagens, relações, contratos e pedidos de ajuda envolvendo Daniel Vorcaro, Alexandre de Moraes, Paulo Gonet e o diretor-geral da Polícia Federal, Andrei Rodrigues. O material foi produzido pela própria PF e tornado público por decisão de Mendonça.

E foi como jogar um fósforo numa sala cheia de gasolina.

Até o SBT entrou em modo de urgência para tratar do caso. A emissora repercutiu as mensagens e seus possíveis reflexos políticos ao longo do dia.

Quando até uma televisão aberta interrompe a rotina para falar de ministros do Supremo, procurador-geral da República e chefe da Polícia Federal no mesmo enredo, é porque a coisa deixou de ser rodapé de coluna jurídica.

Virou assunto de República.

E que enredo.

◆ ◆ ◆

Segundo o relatório da Polícia Federal, Daniel Vorcaro escreveu mensagens destinadas a Alexandre de Moraes perguntando:

“Não conseguimos reverter isso com Paulo e Andrei?”

Na sequência, demonstrou preocupação com a investigação e escreveu que era preciso

“dar um jeito de desarmar isso”
.

Aqui começa a parte em que a Coluna Papudiskina quase se escreve sozinha.

Porque, quando um banqueiro investigado pergunta a um ministro do Supremo se não dá para “reverter” alguma coisa com o procurador-geral da República e com o chefe da Polícia Federal, o brasileiro imediatamente olha para o teto e pensa:

💬 — Reverter o quê exatamente, meu Deus?

E piora.

Em outra mensagem atribuída pela PF a Vorcaro, ele teria pedido que Moraes tentasse sensibilizar Andrei Rodrigues para atrasar a operação policial por alguns dias.

A frase é dessas que fazem qualquer repórter procurar a cadeira mais próxima.

Porque uma coisa é banqueiro reclamando do mercado.

Outra é banqueiro investigado perguntando se o diretor-geral da Polícia Federal consegue atrasar uma operação.


Antes que alguém solte os cachorros:

é preciso registrar algo importante. Até agora, as mensagens demonstram claramente os pedidos de Vorcaro. Elas, por si sós, ainda não demonstram que Moraes tenha efetivamente atendido a esses pedidos ou praticado algum ato ilegal em favor do banqueiro. Juristas ouvidos nesta terça-feira ressaltaram exatamente essa diferença.

E é justamente por isso que o caso precisa ser investigado até o fim.

Não arquivado porque envolve gente importante.

Nem condenado pela internet porque envolve gente importante.

Investigado.
Simples assim.

Só que Brasília aparentemente decidiu abandonar qualquer simplicidade há muito tempo.

Em outra mensagem, Vorcaro teria consultado Moraes sobre o risco de prisão e perguntado se precisava deixar o país. Dias depois, seria preso quando tentava embarcar em aeronave particular.

Imagine a cena.

Você está sendo investigado.

Desconfia que alguma coisa vai acontecer.

Então conversa com um ministro do Supremo.

E pergunta:

💬 — Segunda-feira eu já tenho que estar fora?

Se isso estivesse numa série da Netflix, alguém reclamaria que o roteirista exagerou.

Mas estamos falando de Brasília.

Ali, roteiro ruim às vezes vira documento oficial.

E tem mais.

A Polícia Federal encontrou registros de encontros entre Vorcaro e Alexandre de Moraes desde o fim de 2023. O ex-ministro Fábio Faria aparece como intermediário dessas aproximações. Houve encontros, jantares e até conversa sobre “tomar um whisky”.

O whisky, naturalmente, não é crime.

Ainda.
Porque desse jeito daqui a pouco vão querer regulamentar até o gelo.

O problema verdadeiro aparece quando olhamos o restante do quadro.

Pouco depois daqueles encontros, o escritório de Viviane Barci de Moraes, esposa de Alexandre de Moraes, assinou contrato milionário com o Banco Master. A documentação analisada pela PF indica que a versão final do contrato teve alteração associada ao próprio ministro. O escritório afirmou que Moraes foi consultado pelo setor de compliance apenas para verificar eventuais impedimentos legais e sustenta que os serviços foram efetivamente prestados.

Há ainda mensagens internas atribuídas a Vorcaro demonstrando preocupação com atrasos nos pagamentos ao escritório.

Uma delas entrou para aquela categoria brasileira de documento que começa parecendo conversa de bar e termina dentro de inquérito no Supremo:

“Pqp. Não pagaram Barci de Moraes. Vamos ter problemas.”

Segundo a investigação divulgada hoje, tratava-se de pagamento relacionado ao escritório da esposa do ministro.

É nessa hora que você entende por que André Mendonça decidiu abrir as cortinas.

O próprio ministro determinou que a PF produzisse, em 72 horas, um relatório reunindo referências a Moraes, Gonet e Andrei Rodrigues no material apreendido com Vorcaro. Depois, encaminhou o conteúdo à Procuradoria-Geral da República e retirou o sigilo de parte da investigação. A PGR de Gonet. Bah, tche!

Foi uma decisão institucionalmente explosiva.

Não porque Mendonça tenha condenado alguém.

Não condenou.

Mas porque determinou que aquilo que estava escondido passasse a ser visto.

E luz costuma causar um efeito estranho em Brasília.

Todo mundo começa a piscar os olhos.

O curioso é que o diretor-geral da Polícia Federal, Andrei Rodrigues, reagiu considerando que algumas ordens de Mendonça poderiam configurar abuso de autoridade e sustentando que haveria problemas jurídicos na forma como a apuração foi conduzida.

Pronto.

Chegamos ao ponto em que a própria investigação virou objeto de discussão sobre quem pode investigar quem.

A PERGUNTA DO DIA
Quem investiga o investigador que questionou a investigação do investigado?

PAPUDISKINA APRESENTA
TEMPORADA 1
EPISÓDIO 1
BANCO MASTER

Mas existe um personagem especialmente delicado nessa história: Paulo Gonet.

A PF identificou referências ao procurador-geral da República em contatos de pessoas próximas a Vorcaro. Em determinado episódio, um interlocutor enviou ao banqueiro uma foto ao lado de Gonet e escreveu que ele queria falar com Vorcaro. Em outro, mensagens atribuídas por terceiros ao procurador diziam que ele estaria “na torcida”. O relatório também registra discussão sobre viagem a Londres e despesas de pessoas próximas. Gonet terá oportunidade institucional de se manifestar sobre o material, já que a própria PGR foi chamada por Mendonça a analisar o caso.

Mais uma vez:
menção não é condenação.
Foto não é crime.
Conversa não é automaticamente tráfico de influência.

Mas ministro, procurador-geral da República, chefe da Polícia Federal e banqueiro investigado aparecerem simultaneamente no mesmo conjunto de mensagens merece algo além do velho:

— Não há nada para ver aqui.

Há, sim.

Há muito para ver.

◆ ◆ ◆

E aqui entra outra questão que me incomoda.

Parte considerável da imprensa brasileira parece ter adquirido, nos últimos anos, uma espécie de reverência automática por certas instituições.

Criticar determinadas autoridades virou quase uma heresia.

Questionar o Supremo, sacrilégio.

Levantar dúvida sobre decisões, ataque às instituições.

Pedir explicações, golpismo.

Calma.

Instituição democrática não é porcelana chinesa.

Não quebra porque jornalista faz pergunta.

Muito pelo contrário.

Instituição que não suporta pergunta já começou a deixar de ser democrática.

E é por isso que o episódio desta terça-feira é tão importante.

A coragem institucional de André Mendonça não está em condenar Alexandre de Moraes.

Está em permitir que as informações sejam conhecidas e investigadas.

Aliás, existe uma ironia histórica deliciosa nisso.

Bolsonaro anunciou Mendonça como o seu ministro “terrivelmente evangélico”.

Pois o terrivelmente evangélico resolveu abrir o livro. Não a Bíblia de Genesis a Apocalipse.
E agora todo mundo quer saber quem escreveu cada capítulo. Ou seria o proprio Apopolítico?

Pode ser que, ao final, as explicações de Moraes sejam suficientes.

Pode ser que Gonet demonstre não haver irregularidade alguma.

Pode ser que Andrei Rodrigues demonstre que nenhum pedido chegou até ele.

Pode ser que muita fumaça desapareça quando os fatos forem examinados.

Ótimo.

Que seja assim.

Mas transparência é justamente o caminho para descobrir isso.

O que não é admissível é tratar a cúpula do Estado como uma espécie de condomínio fechado no qual os moradores investigam os moradores e depois concluem que não há necessidade de mostrar a ata da reunião.

SETEMBRO
O mês da Independência
O Judiciário brasileiro possui independência suficiente para investigar e, se houver provas, responsabilizar até mesmo os seus próprios integrantes?

Porque independência de verdade não é fazer discurso na frente da bandeira.

É conseguir aplicar a mesma régua quando o investigado está do outro lado da Praça dos Três Poderes.

◆ ◆ ◆

E temos ainda o presidente Lula assistindo a tudo isso.

Andrei Rodrigues é diretor-geral da Polícia Federal durante seu governo.

Então a pergunta política também chegará ao Planalto:

E O PLANALTO?
Painho vai fazer o quê?

Manterá Andrei normalmente no comando enquanto essas dúvidas são esclarecidas?

Pedirá explicações?

Entenderá que tudo não passa de fumaça?

Ou descobrirá que independência da Polícia Federal é ótima — principalmente quando ela investiga os outros?

Eu não sei.

E essa semana ainda está só começando.

Por enquanto, André Mendonça abriu a janela.

A República sentiu a corrente de ar.

Agora veremos quem vai tentar fechá-la.

Porque, depois desta terça-feira, fingir que nada apareceu nas mensagens será difícil.

Muito difícil.

🇧🇷
PAPUDISKINA • EDIÇÃO EXTRAORDINÁRIA
Independência é bonita no hino.


Quero ver praticá-la quando o investigado senta na mesma mesa do investigador.

Daniel Oliveira da Paixão

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